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Dez 08
publicado por Fábio Matos Cruz, às 14:35link do post | comentar

 

Em tempos de crise, a demagogia regozija. OK, a responsabilidade é do mercado; OK, há demasiada especulação e aspiração megalómana no sistema financeiro. A culpa não fica, no entanto, por aqui. Há dedo a apontar ao Estado e às instituições que suporta. No caso dos EUA, não há como fugir. Com o 11 de Setembro, o FED baixou as taxas de juro para 1% para suportar a perturbação na economia. A partir daí, mergulhou-se numa espiral irreversível. As pessoas passaram a flutuar em dinheiro barato, consumindo sem receio de ressaca (o «ganhar 100 e gastar 150», como nota Henrique Raposo). Por altura da reeleição em 2004, George W. Bush encantou os americanos com a promessa de um "All-American Dream", onde as famílias prosperariam com casa, jardim e um carro ou dois. A febre do consumo propagou-se e a bolha foi-se formando, ao mesmo tempo que os incentivos para emprestar cresciam. E, pufff, as bolsas passaram a pintar-se de vermelho. Quem emprestou, agarrou-se onde pôde - carinhos e miminhos do Estado -; quem consumiu, deixou de poder fazê-lo.

 

Ora, trata-se tão somente do colapso de dois pecados que obcecaram a mentalidade ocidental durante anos: a luxúria e a cobiça. Não é o fim do capitalismo; quando muito, é a extinção de um capitalismo selvagem e pouco saudável - George Soros chama-lhe fundamentalismo de mercado. O catecismo marxista-leninista - morte ao espectro do neoliberalismo e blá blá - é uma ignorância contagiante e perigosa. O aristocrata gordo que se pavoneia de paletó e cigarrilha roubando dinheiro ao povo já não representa o capitalismo. Pelo contrário: o capitalismo tirou milhares de pessoas da pobreza por todo o mundo - China e Índia são o exemplo mais notório -, gerou investimento e inovação e estimulou a competitividade. Os dedos indicadores acusam; há que afinar-lhes a pontaria. 

 


Tens razão. Mas não em tudo. Se há países paradigmáticos no que diz respeito à enorme assimetria entre riqueza e pobreza, garanto-te que a China e a Índia figuram nos lugares cimeiros.

E olha que o número de pobres é sempre o que aumenta mais depressa.
Simão Martins a 10 de Dezembro de 2008 às 16:02

Como dizes e bem não é o fim do capitalismo. Mas, é o momento oportuno para o capitalismo se reformar e meditar nas consequências que a sua postura trouxe ao mundo. O irrealismo ao apoderar-se das pessoas conduz ao desastre. Indiscutivelmente no caso dos EUA o estado teve culpas. Fomentou a ideia de que tudo era possível comprar, até ao momento em que a bolha rebentou. Mais do que atribuir culpas, trata-se de repensar o papel do estado e a megalomania da espécie humana.
André Pereira a 10 de Dezembro de 2008 às 16:05

Simão,

Ambos fazem parte do G20 (países em desenvolvimento). Apesar da discrepância que mencionaste, são potências emergentes. Aos poucos, a China notabilizou-se pela produção de bens e a Índia pelo fluxo de serviços.
Fábio Matos Cruz a 10 de Dezembro de 2008 às 16:17

Ainda agora verifiquei que a Índia conta com 325 milhões de utilizadores de serviços móveis. Só em Outubro registaram-se mais de 10 milhões de novos assinantes. Curiosamente são as populações das zonas rurais quem mais adere ao telemóvel. Os tempos de crise parecem distantes das novas economias em ascensão. Apesar disto, não se podem esquecer as desigualdades que continuam gritantes.
André Pereira a 10 de Dezembro de 2008 às 16:32

Ok. Mas quantos países do G20 têm a densidade populacional da China? Já experimentaste pôr em prática a regra da proporcionalidade?

A verdade é que são de factos países emergentes no plano económico internacional. Mas não podemos ignorar as condições da maioria da população (André, ter telemóvel não significa ser rico. Ainda ontem li que era possível mostrar-se uma guerra sem se mostrar uma arma).
Simão Martins a 10 de Dezembro de 2008 às 16:43

"A verdade é que são de facto países emergentes no plano económico internacional."

Err, o único critério dos G20 é precisamente este. Atenta ao conjunto de países que fazem parte do grupo. É vê-los competir pela maior taxa de pobreza e corrupção.
Fábio Matos Cruz a 10 de Dezembro de 2008 às 16:49

Simão claro que ter telemóvel não significa ser rico. Eu peguei nisso para demonstrar o crescimento económico que esses países estão a conseguir. O crescimento económico, no entanto, não significa igualdade e preocupação com os menos favorecidos. Ajuda, mas não é suficiente. Os pobres nunca terão as mesmas igualdades. As oportunidades nunca são iguais. No mundo perfeito não seria assim.
André Pereira a 10 de Dezembro de 2008 às 20:42

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