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Dez 08
publicado por Fábio Matos Cruz, às 21:26link do post | comentar

 

No Público de ontem, Francisco Sarsfield Cabral foi pertinente:

 

«Curioso é que, para combater a crise com raiz no excesso de crédito, se recorra à distribuição maciça de crédito pelas autoridades... Com mais dinheiro, muito mais dinheiro, lançado pelos bancos centrais e pelos Estados. Estimulando as pessoas a não pouparem agora, mas a consumirem.»

 

Facto: a bolha que rebentou contagiou o plano económico e social. A crise derreteu dinheiro porque se tornou fácil obtê-lo. Daí que o paradoxo a que Sarsfield Cabral se refere seja alarmante. É combater o fogo com fogo. Foi precisamente para evitar isso que os bancos centrais de todo o mundo se mostraram tão reticentes a baixar as taxas de juro; com o pânico instalado, a consciência, a boa-fé e a responsabilidade murcharam.

 

Acrescento outro risco: o investimento público. Em alturas destas, são muitos os que caem na tentação de se apaixonar por Keynes. Obama parece estar: já prometeu um pacote de investimento em infra-estruturas para salvar e/ou criar 2,5 milhões de empregos. A curto prazo, aplaude-se; a longo prazo, o pânico é inevitável. Ao mesmo tempo, os EUA esperam erguer-se com a ajuda da China, que se serve das exportações para aumentar as reservas de moeda estrangeira que detém. Estar-se dependente de alguém para tratar das contas de casa não é aconselhável. Paul Krugman, que tem exigido que Franklin D. Roosevelt desça à Terra ou que Obama o encarne, reconheceu-o há já algum tempo em entrevista ao Telegraph:

 

«China exports lots of goods and foreign companies are investing heavily there, so it's running a huge trade surplus. But rather than keep all that money, Beijing is using it, overwhelmingly, to buy US government Treasury bills. China could well decide to stop this. If so, the dollar falls sharply, US interest rates rise and our housing bubble bursts. That would stop the American economy, the locomotive for the whole world, in its tracks. So, in this weird way, China is now the financial nexus keeping the global recovery going.»


«China has immense power in this trade row. If it stops doing what it is doing, the Chinese government could easily trigger a global economic earthquake.»

 

Não é obsessão pelo défice; é preocupação. A América de Clinton prosperou ao contê-lo, moderá-lo.

 

O caso de Portugal é ainda mais caricato: com um valor escandaloso de dívida externa e um fluxo de crédito interbancário congelado, prossegue em aventuras de curto prazo. A ânsia por resultados imediatos perdura. Ainda para mais, estando o ano eleitoral a aproximar-se. Não é bonito ter o povão de nariz torcido. Voltou-se a Keynes mas, no caminho, ignorou-se o que o próprio acabou por reconhecer: «no longo prazo, estamos todos mortos».


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