02
Jan 09
publicado por Alexandre Veloso, às 15:54link do post | comentar

Há três dias disse que um sonho para 2009 seria o de a Rússia parar de chantagear a Ucrânia com o possível corte no fornecimento de gás. A minha esperança desapereceu ainda mal o novo ano tinha começado, quando os russos cortaram mesmo o gás aos ucranianos.

O conflito entre russos e ucranianos não é novo e já arrasta-se desde 1991, aquando da independência da Ucrânia, coisa que os russos verdadeiramente nunca digeriram.

Enquanto Kiev foi controlada por aliados do Kremlim, como o antigo Primeiro-Ministro Viktor Ianukovich e o antigo Presidente Leonid Kuchma, os russos não tinham nada com o que se preocupar.

A situação alterou-se com a Revolução Laranja, em 2004, que levou Viktor Iuschenko à presidência. Os russos nunca gostaram de Iuschenko devido às suas tendências de pensar pela própria cabeça, coisa que Moscovo não estava habituada a ver num país que Putin sempre enxergou como um satélite da Rússia. Moscovo tentou de tudo para evitar que Iuschenko chegasse ao poder, inclusive envenenar o candidato, num método que fez lembrar o KGB no seu pior.

A vitória de Iuschenko nas presidenciais acabou por condenar a Ucrânia a péssimas relações com o Kremlim. Os constantes cortes no fornecimento de gás à Ucrânia são a resposta da Rússia à política pouco colaboradora(eufemismo para submissão) que Kiev tem com Moscovo. Este é um caso simples de chantagem política, já que os russos utilizam o seu poderio energético para fazer valer os seus interesses na região e para pressionar os ucranianos a serem mais flexíveis.

A intenção de Kiev de aderir à NATO é vista em Moscovo como uma afronta que os russos não poderiam tolerar. 

Moscovo é astuta na acções que toma, pois sabe a actual instabilidade que se vive na Ucrânia. Taxas de desemprego altas, a inflação a subir, a riqueza do país a descer e os dois maiores poderes do país em conflito permanente, já que as relações entre o Presidente Iuschenko e a Primeira-Ministra Iulia Tymoschenko não são as melhores. O objectivo do Kremlim é tirar dividendos da instabilidade ucraniana.

O economista americano Anders Aslund afirma categoricamente que "o principal objectivo (deste corte no fornecimento de gás) é desestabilizar a vida política ucraniana. Mostrar que a democracia não funciona naquela parte do mundo".

Os russos querem demonstrar que a democracia não existe. O que é irónico é que eles falam porque tem conhecimento de causa. Tudo o que existe hoje na Rússia pode ser qualquer coisa, menos uma democracia. Quem têm ainda uma polícia secreta, que é acusado de estar envolvido na morte de jornalistas "impertinentes" e que não dá liberdade para a oposição falar não pode arvorar-se em paradigma da democracia.

 

PS: Para saber o que é realmente a Rússia actualmente, recomendo dois livros da jornalista Anna Politkovskaya (assassinada em condições muito suspeitas):

- Um Diário Russo ( Editora Bertrand)

- A Rússia de Putin ( Editora Pedra da Lua)

 

 


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