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Jan 09
publicado por Fábio Matos Cruz, às 01:31link do post | comentar

Daniel Oliveira escreve na última edição do Monde Diplomatique que «a experiência mostra que, em democracia, o poder institucional pode ser um importante indutor de movimentos sociais», que «a força do movimento social e a sua tradução no terreno institucional não são duas realidades absolutamente divorciadas», mas que «uma das angústias da esquerda, depois de tantos anos de recuo político, é a ausência de um programa congregador para a conquista do poder». A fobia, o nojo à responsabilidade de governar é precisamente o oxigénio da esquerda - ou, vá, a esquerda da esquerda. É, aliás, uma força de bloqueio que vai sendo gerida com resistência a pendores reformistas, com laivos de porreirismo e de troca de carinhos com fenómenos de contestação - sem, necessariamente, esperar solucioná-los -, num espaço restrito em que desvios significam traições. É mais ou menos isso o que Daniel Oliveira considera ser os «três becos sem saída: o conservadorismo, o populismo e o motim».


A situação chega a ser constrangedora em momentos de governação: se, em governos de centro-esquerda, as suas forças à esquerda condenam cedências e consensos com o "campo inimigo", a tendência mais frequente de quem governa é acusar essas mesmas forças de se auto-aniquilarem pelo caminho do sectarismo. Os obstáculos a uma consistência política avolumam-se. O que, hoje, é mais chocante é a visão belicista da esquerda radical: na convicção de que todas as formas de governo são pérfidas, o fim parece estar no exercício de contrapoder, no estrangulamento ideológico. E esta autofagia está para durar.


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