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Dez 08
publicado por Alexandre Veloso, às 17:27
editado por Fábio Matos Cruz às 18:33link do post | comentar

Muito se tem falado dos desafios que Barack Obama vai ter pela frente quando assumir a Presidência dos Estados Unidos a 20 de Janeiro: como resolver a crise económica, baixar o défice de 1 bilião de dólares que Bush lhe vai deixar, melhorar o sistema de saúde, revitalizar o sector automóvel, se vai ou não retirar as tropas do Iraque, enviar novos destacamentos para combater os talibans no Afeganistão e se vai mesmo encerrar a infame prisão de Guantánamo. Mas o que ninguém se lembra é da história recente dos vários presidentes americanos. Desde a vitória na II Guerra Mundial, TODOS os presidentes americanos tiveram ao longo dos seus mandatos alguma crise ou uma guerra para enfrentar e TODOS, por melhor que tenham exercido o cargo, ficarão sempre marcados por ela.

 

Para clarificar os factos, vejamos as crises e os escândalos que envolveram cada presidente:

 

Harry Truman: teve que arcar com a responsabilidade de substituir Roosevelt (talvez o melhor presidente americano do século XX) e teve o seu mandato marcado pela crise em Berlim, com o bloqueio soviético à cidade, e pela Guerra da Coreia, em que, apesar da vitória militar, não foi capaz de evitar a divisão da Coreia em duas partes, com consequências nefastas para o povo e a norte do paralelo 38.

 

Dwight Eisenhower: ao longo dos seus dois mandatos viu a influência comunista ser alargada na América Central, com o clímax de 1959 com a tomada do poder em Cuba, por Fidel Castro, passando assim os EUA, a terem um país comunista a cerca de 150 quilómetros das praias de Miami.

 

John Kennedy: o malogrado presidente, apesar das vitórias que alcançou no seu curto tempo na Casa Branca, ficará sempre marcado pela calamitosa operação da Baía dos Porcos em Cuba, que, ao tentar derrubar Fidel, apenas o fortaleceu.

 

Lyndon Johnson: o seu legado, ainda hoje lembrado, é o de ter começado oficialmente a Guerra no Vietname. Até morrer, viveu sempre traumatizado com essa decisão. Teve ainda que fazer frente, nem sempre da melhor maneira, aos motins raciais, que varreram os EUA, principalmente em 1968 (último ano do seu mandato).

 

Richard Nixon:  Watergate. Esta única palavra pode definir os anos Nixon. A sua imagem está até hoje umbilicalmente ligada a um dos maiores escândalos políticos da história dos EUA. Um comportamento moral e eticamente condenável marcou o seu mandato.

 

Gerald Ford: Um presidente que ficou sempre marcado pelas condições anormais em que chegou à Casa Branca, após a renúncia de Nixon. Sempre marcado pelo facto de ser o único presidente da história americana não eleito pelo povo, teve ainda que aguentar o fardo político do Vietname, quando o conflito já se encontava no seu estertor. A fuga dos últimos americanos em Saigão, pela parte de cima do prédio da embaixada, quando os vietcongues já invadiam a cidade, é talvez o ponto mais baixo da história americana. Período esse que Ford teve o azar de presenciar como presidente da nação derrotada.

 

Jimmy Carter: Teve o seu mandato indelevelmente marcado pela crise dos reféns na embaixada americana em Teerão. A sua incapacidade para lidar com o caso, conjugado com a inabilidade política que demonstrou durante a crise do petróleo em 1979, custou-lhe a reeleição em 1980 e marcou-lhe para sempre a carreira política.

 

Ronald Reagan: Talvez o campeão dos escândalos e das crises. Obviamente teve grandes sucessos durante os oito anos em que esteve em Washington, mas os conflitos no Líbano, com a morte de vários soldados,  o lançamento de misseís contra a Líbia de Khadaffi, a estranha invasão da ilha de Granada, devido à ameaça de tomada de poder pelos comunistas, conjugadas com o enorme défice que deixou ao seu sucessor e com o infame caso Irão-Contras ( que quase o levou a sofrer um impeachment, no que seria certamente o fim da sua presidência), fazem com que a sua passagem pela Casa Branca fique sempre marcada pelas constantes guerras em que envolveu o país.

 

George W. H. Bush:  Teve a sorte (?) de ser o presidente dos EUA durante um dos momentos mais revolucionários do século XX, a queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética, mas não se livrou do estigma dos seus antecessores: levar o país de uma guerra ou estar envolvido numa grande crise. Neste caso foi a invasão do Panamá, que tinha como objectivo derrubar o governo comunista de Noriega, um antigo aliado americano.

 

Bill Clinton: O caso Monica Lewinsky é indissociável da presidência Clinton. O comportamento leviano do presidente, combinado com o facto de ter mentido ao país, levou-o a sofrer um processo de impeachment. Foi salvo na votação do Senado, que o ilibou das acusações que lhe eram imputadas. O lançamento da operação Raposa no Deserto, em dezembro de 1998, durante o julgamento do processo de impeachment, também não ajudou a melhorar a sua imagem, sendo acusado de criar conflitos internacionais para desviar as atenções do caso Lewinsky.

 

George W. Bush: Já  se foi dito tanto sobre aquele que muitos consideram como o pior presidente da história dos EUA, que não vale a pena estar aqui a enumerar as guerras e as crises enfrentadas. São do conhecimento geral.

 

Agora podem perguntar-se o que Obama tem a ver com tudo isso? Na minha opinião, tem tudo, porque estando as expectativas tão altas, é bom que a nova administração tenha em atenção estes exemplos. O mandato de Obama será marcado por muitos conflitos e por muitas crises, como a história acima descrita demonstra. Por isso, penso que os EUA e o mundo tem que refrear as expectativas sobre o que Obama pode fazer. Nem tudo será um mar de rosas.

A eleição de um Presidente negro, num país com a história de conflitos raciais como os Estados Unidos, foi, e parafraseando Neill Armstrong, "um pequeno passo para o homem, mas um salto gigantesco para a humanidade", mas isso não pode acomodar os cidadãos americanos. É preciso alterar o estado das coisas. Mas Obama não vai fazer tudo sozinho, porque é preciso que o povo americano também esteja disposto a fazer sacrifícios. A máxima de John F. Kennedy, é hoje tão válida, como há 45 anos atrás: " não pergunte o que o seu país pode fazer por você, mas o que você pode fazer pelo seu país" .

 

Nota: Abordei todos os presidentes americanos após a II G.M devido ao facto de ter nascido um novo mundo após o conflito. Muitos Presidentes americanos anteriores à Guerra também entraram em guerras e tiveram de fazer frente a grandes conflitos. Só não os citei por que não entravam no meu esquema cronológico.


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