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Dez 08
publicado por Fábio Matos Cruz, às 16:47link do post | comentar

 

Miguel Sousa Tavares confessa que não consegue entender «esta obsessão de toda a oposição e de muitos comentadores com o 'optimismo' do Governo». Assumo: não consigo entender Sousa Tavares. Por dois lapsos.

O primeiro lapso é colocar-se numa posição em que a realidade apenas se vê por duas lentes, optimismo e pessimismo - acrescento: desespero, angústia e pânico -, sem que haja necessariamente um equilíbrio onde a perspicácia e a clareza de ideias imperem. Na verdade, tanto o optimismo pode cair na tentação de abraçar a utopia e o sonho, como não são poucas as vezes em que o pessimismo cede a exageros e caprichos, caindo, também ele, num fosso irreal. Mas Sousa Tavares não admite estes pequenos pormenores. Ao assumir a inevitabilidade dos dois extremos, é incongruente ao declarar que, ou o Governo continua a «recusar ver a extensão da tragédia que se aproxima», ou a alternativa é Sócrates anunciá-la e, então aí, impõe-se um dilema nas cabecinhas da oposição: mostrar satisfação ou cair-lhe em cima, «acusando-o de ser o principal causador da desconfiança». Será caricato referi-lo, mas o que se discute aqui é a validade em falar verdade.

O segundo lapso é recorrente e tentador: servir-se da «crise económica mundial sem precendentes» para ilustrar a desgraça portuguesa. Seria assim tão imprevisível o grau de danos sistémicos do colapso financeiro dos EUA, num mundo cada vez mais globalizado, interligado e interdependente para poder respirar com bons pulmões? Mas não é isso que está aqui em causa. Há anos que Portugal sobrevive débil e Sousa Tavares até afirma que Sócrates «andou três anos a tentar pôr ordem na casa e nas contas públicas (...) a fazer o que de há muito se impunha, que era controlar o défice público [e] apoiar as exportações». «A fazer o que de há muito se impunha». Será, então, legítimo insistir na desgraça alheia, quando há outra que há muito nos vem afectando? Talvez o «não há dinheiro para nada» ferreirista tenha sido proferido com contexto - na verdade, ser-se niilista apenas por sê-lo nunca seduziu.

 

Valha-nos a audácia de Nicolau Santos para distinguir três formas de ver as coisas:

 

«Um economista optimista é hoje aquele que acredita que a recessão em que vai entrar a economia europeia acabará, no melhor dos casos, no segundo semestre de 2010. Um economista pessimista é aquele que faz comparações com o que se passou no Japão, que esteve uma década a viver com taxas de juro reais nulas ou mesmo negativas - mesmo assim a economia não crescia -, e prevê que nos vai acontecer o mesmo. E há, claro, o economista que acredita em milagres e diz que nos vamos safar com um pequeno aperto, mas que no final de 2009 já estaremos a regressar ao nosso estilo de vida, baseado em crédito barato e abundante, matérias-primas ao preço da chuva, bolsas em alta, poder de compra sempre a aumentar.»

 

O mais grave é estar-se, neste momento, num impasse que, à vista de muitos, é inofensivo: Vítor Constâncio já considerou que Portugal tem fortes probabilidades de entrar em recessão técnica; para adocicar a coisa, Teixeira dos Santos evita o palavrão e prefere admitir que tempos difíceis afectarão os portugueses; magistralmente, Sócrates profere o que João Pereira Coutinho considera ser o «discurso mais delirante de que há memória neste mandato», onde o primeiro-ministro «subiu ao palco da fantasia e prometeu um 2009 glorioso para o bolso dos portugueses». O comboio vai descarrilando. Resta-nos a realidade, que, essa, sabemos que é infalível.


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