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Abr 09
publicado por Alexandre Veloso, às 13:07link do post | comentar

 

 

 Para quem estuda jornalismo, certamente o nome de Tom Wolfe não é desconhecido. Um dos "pais fundadores" do "new journalism" e um dos mais respeitados jornalistas americanos. Estreou-se no mundo dos romances há cerca de 20 anos com o estrondoso "A Fogueira das Vaidades", que valeu-lhe grandes elogios da crítica.

 

 Foi preciso esperar até 2004 para que Wolfe voltasse aos romances, o que fez com este "Eu Sou a Charlotte Simmons", agora traduzido em português pela editora Dom Quixote. Este é um livro que causou grande polémica na altura da sua publicação devido ao facto de pôr a nu a verdadeira realidade universitária americana. Apesar de não ter sido tão bem aceite pela crítica como o seu livro anterior, devido a alguns defeitos inerentes a qualquer escritor (tais como o excesso de adjectivos e de pormenores e o cliché de alguns personagens), este livro teve o mérito de apontar tudo o que de mal acontece nas universidades dos EUA, o que, com maior ou menor dificuldade, foi reconhecido pelos críticos.

 

 Os estudantes é que não tiveram problemas em criticar veementemente o livro, acusando o autor de não saber diferenciar entre os alunos interessados e os que não querem nada, de não conhecer a vida universitária por dentro (vale lembrar que Wolfe fez um trabalho de pesquisa para este livro que consistiu na sua visita a vários campus universitários e na conversa com vários estudantes) e de fazer uma generalização das situações, juntando todos os alunos num mesmo "saco" de pervertidos, alienados, relaxados, tarados sexuais e sem cultura nenhuma.

 

 A história centra-se na vida de Charlotte Simmons, estudante que chega à fictícia Universidade de Dupont, vinda das montanhas da Carolina do Norte, e que sonha em fazer uma carreira académica que dê seguimento ao excelente percurso que teve na escola secundária. Só que para a inteligente e culta Charlotte a universidade vem a revelar-se não um oásis do conhecimento, onde ela vai aprofundar o seu saber, mas sim um lugar, e nas palavras de Francisco José Viegas na revista LER  deste mês, "onde se juntam todas as imoralidades, a glorificação do desporto e do corpo, a política de castas, a desvalorização da cultura e da leitura e o primado da tecnologia sobre a simples humanidade." A partir da descoberta de que a universidade não é aquilo de que estava à espera, a vida de Charlotte entra numa espiral de acontecimentos variados, de encontros e desencontros com os outros personagens centrais da obra e de uma profunda decadência moral, que tenta corromper a personagem, e que leva o leitor a ficar agarrado ao livro e a torcer para que a miúda do campo não se deixe vencer pelas mundanas tentações da cidade, apesar de por vezes a ingenuidade de Charlotte em certas situações ser irritante. 

 

 Este é um livro altamente recomendável para aqueles que querem realmente saber a verdade sobre a realidade universitária dos EUA. Quer goste-se, quer não do estilo do autor ou das suas descrições, não se pode apontar Tom Wolfe como um inventor de aldrabices sobre os inocentes jovens americanos, porque tudo o que vêm escrito no livro é a mais pura verdade, ainda que com uma generalização excessiva, e isso é uma coisa que os jovens americanos sabem. Bem lá no fundo, mas sabem.

 

 


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