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Mai 09
publicado por Simão Martins, às 22:01link do post | comentar

 

 

Quando nasceu, o bezerro não sabia ainda o que o esperava. Olhava para os seus amigos - porcos, patos, potros e uns quantos pintos acabados de sair da casca - e via como viviam felizes, sem grandes dramas. Apesar de, dependendo do gosto, uns mais cedo, outros mais tarde, servirem de refeição aos humanos. Já ouvira umas quantas histórias dos mais velhos que diziam que as manias alimentares dos homens variavam de zona para zona. "Se for mais para o litoral, os carapaus e as sardinhas que se cuidem!". Mas como fora bem criado, nunca se preocupou muito.

E o bezerro foi crescendo, até se tornar um macho corpulento e portentoso, fazendo inveja aos restantes amigos do mesmo gado. E, um dia, mandaram-no chamar. Ia para a cidade! Mais concretamente, para uma arena onde se ia "exibir". Quando chegou, deparou-se com outros machos tão ou mais impressionantes que ele. Depressa meteu conversa com alguns, para saber qual era o "plano das festas".

 

- "Estás a ver aquele tipo ali ao fundo, cheio de cicatrizes no cachaço?", diz um dos touros com quem estava a falar. "Vai entrar agora, não sei se resiste. Já é a segunda ou terceira vez. Geralmente dão cabo de nós duma só vez."

 

Ficou aterrado. "Dar cabo de nós??? Mas como? E porquê?", pensava, enquanto o medo tomava conta da sua respiração nervosa.

Então, a pouco e pouco, iam chegando touros ensanguentados, cobertos de bandarilhas cravadas na carne, de olhar cabisbaixo e ainda cansados de tanto correr. Tentaram dar cabo do homem que estava sobre o cavalo; este último não tinha qualquer culpa - via-se pelo dorso, também ele carregado de marcas causadas pela fricção constante das esporas e, sobretudo, pelo olhar.

Chegara a sua vez. Entrou na arena. Ao início sentiu-se tonto, tal era a barulheira causada por milhares de pessoas que aplaudiam e uivavam perante a sua chegada; os holofotes tiraram-lhe a visão por breves instantes. Recuperada a lucidez, observou o terreno arenoso e bufou. Diante dele estava um homem, vestido de forma ridícula, montado a cavalo. "Cobarde", pensou o touro. Numa das mãos empenhava a tal florida bandarilha. Antes de avançar, reflectiu uma vez mais.

 

"Que grande merda. Com que então, aquela mariquice é que vai dar cabo de mim. Não sei muito bem porquê. Toda esta gente aqui à volta está a aplaudir este tipo, quando ele acabou de torturar uma data de fulanos iguais a mim. Estão divertidos. Será isto uma festa? Não percebo. Será um ritual qualquer, em que têm que oferecer um sacrifício animal? Não me parece. Que se foda, realmente. Eles e tudo isto. Agora já não posso voltar para trás. Mesmo que quisesse, davam cabo de mim de qualquer forma. Não sei se teria que ser assim a vida, mas que é, é."

 

Bufou e avançou para o cavaleiro, que estava montado num cavalo. Tentou não acertar no animal, mas nem precisou. A elegância e agilidade com que se lhe esgueirava fazia inveja. Estava a ser humilhado. Gozado. E, de repente, quase sem se aperceber, uma dor lacinante surgiu um pouco abaixo do pescoço. A ponta metálica da bandarilha acabava de penetrar o cachaço do touro. Afastou-se para não ser sujeito novamente à experiência. Mas de nada valeu. O cavalo era guiado pelo homem e obedecia-lhe rigorosamente, aproximando-se o suficiente para que o seu amo conseguisse ferir uma vez mais o touro. E a manobra foi-se tornando rotineira, até que o impressionante animal, que nada podia fazer, foi enfraquecendo ao ponto de tombar no chão. Ouviu-se um mar de aplausos, gritos e ovações. As bancadas levantaram-se, não para ver como estava realmente o touro, mas para aplaudir novamente o cavaleiro.

Não conseguiam ver, àquela distância, que pelo focinho do pequeno gladiador escorria uma lágrima. Foi arrastado por meia dúzia de homens para fora da arena. Bufou uma última vez. 


Simão,

Respeito tudo aquilo que dizes no teu texto. Faço a minha declaração de interesses: sou Ribatejano. Só quem aqui nasceu pode saber o que significa para nós a festa brava. Não estou a falar de touradas. Falo das tipícas festas ribatejanas: largadas de toiros, convívio, uns copos, um fado, etc. Não se consegue explicar, sente-se e pronto.
O pessoal contra as touradas é contraditório por natureza: já visitaram matadouros? já foram a alguns circos? O que dizem das condições em que são criados os porcos, vacas e frangos para consumo? Pois. Não é só ser-se contra as touradas. Eu não sou como os anti-touradas. Eu aceito opiniões diferentes da minha. Afinal vivemos em democracia.
Aproveito,por isso, para te dar os parabéns pelo texto. Não concordo, mas reconheço a valia do teu texto.
André Pereira a 12 de Maio de 2009 às 14:05

Óptimo texto.

Eu assumo-me, sem quaisquer receios, como uma sendo anti-touradas. Já Ghandi dizia que a grandeza de uma nação pode ser medida pela maneira como esta trata os seus animais - e acho que já está na altura de se criminalizar esta prática hedionda e macabra.
Uma tradição, por mais defensores que possa ter, não pode ter como base o sofrimento de um ser vivo. Dizem-me que isto é contraditório porque como carne e porque os matadouros também não são um espectáculo bonito de se ver; mas eu também não me divirto à custa dos sofrimento desses animais, não faço um espectáculo disso e não lhe chamo tradição. Faço-o para sobreviver e presumo que ao se matar o animal, este sofra o menos possível (não me digam que lhe abanam um paninho vermelho na cara antes de o matarem).
Se dizem que nos matadouros "também se fazem coisas más" então defender as touradas é, sim, contraditório.
É irrelevante que se diga que é inexplicável, que é apenas uma coisa que se sente. Podem sentir isso à vontade, mas os direitos do animal prevalecem. Ao touro falta a racionalidade e a possibilidade de escolha, que lhe é retirada pelo domínio humano.
É apenas uma versão contemporânea da escola de gladiadores. Não há muito tempo era tradição apedrejar mulheres adulteras em praça pública; há 300 anos ainda se faziam autos-de-fé no terreiro do paço. O pretenso argumento da tradição não oferece legitimidade ao argumentador.

Espero viver para ver esta idiotice desaparecer do meu país :)
Raquel a 18 de Maio de 2009 às 21:13

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