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Dez 08
publicado por Fábio Matos Cruz, às 20:36link do post | comentar

 

Não é bonito ser-se - quase - atingido por um sapato. Ainda para mais, no caso de George W. Bush. Ainda para mais, em Bagdade. Ainda para mais, em fim de mandato.

 

Sou a favor de que a Administração Bush se torne um case study em todo o mundo. Por duas razões: primeiro, para se perceber de que forma é que todos aqueles que elogiam os louros se aguentam firmes face à ameaça mortífera, de escala global, que representa os que radicalmente os repudiam; depois, a partir do combate entre as duas legiões, considerar a possibilidade de se harmonizar um consenso. Mas futuramente. Neste momento, trata-se de digestão - que, reconheça-se, tem sido pouco cuidada, considerando a quantidade de bombardeamentos propagandísticos que exigem a cabeça de Bush; daí nascerá o devido espaço de reflexão.

 

Bush sabe o que representa. Sabe a forma como foi sendo representado. Ele sabe. O Partido Republicano sabe. John McCain sabe: os motivos que levaram à ausência do Presidente na Convenção em St. Paul são óbvios e não foi por acaso que Bush não piou durante a campanha presidencial - o próprio seguira a mesma estratégia ao longo da sua campanha, distanciando-se da imagem fracassada do pai. No fim deste mandato, Rui Ramos lança a pergunta certa: «que nome vamos dar aos nossos problemas?», depois de «guerras, furacões, as temperaturas médias do planeta, bancarrotas bancárias - tudo, sem excepção, [ter sido imputado] a Bush, com assentimento geral».

 

Num artigo corajoso e notável na Newsweek, Fareed Zakaria alertou para algo lógico relativamente à Administração Bush:

 

2º mandato > 1º mandato

 

Com relativo bom senso, o raciocínio é fácil. Se a análise popular de ambos os mandatos se ficou a dever ao modo como Bush geriu a política externa - o catecismo da guerra global contra o terrorismo, profetizado por via do Eixo do Mal onde se englobou o Iraque, o Irão e a Coreia do Norte, assim como a moldagem das relações diplomáticas com potências emergentes -, é por aí que a ponderação deve prosseguir caminho. Principalmente nas áreas de maior atrito.

 

No Iraque, não há dúvidas de que a invasão devastadora de 2003 caminhou para o colapso, ao alienar-se as forças sunitas e xiitas com a ocupação e fazer brotar o caos e a anarquia no terreno. A Administração soube domesticar o mundo com a questão das armas de destruição massiva e pontapeou a legitimidade de uma guerra preventiva ao avançar com uma guerra antecipada. Mas Bush fê-lo por unilateralismo, mecanicismo e ferocidade; com a surge no segundo mandato, as tropas americanas - e, louvado seja, David Petraeus - souberam cooperar com antigos rebeldes para combater a Al-Qaeda, amenizando a espiral niilista e vencendo em regiões essenciais para a estabilização do Iraque. A partir daí, caminhou-se na direcção certa: foi possível a entrega do poder sobre a província de Anbar às autoridades iraquianas e a retirada das tropas americanas até 2011 foi recentemente acordada entre as duas forças.

 

Com a Coreia do Norte e o Irão, Bush converteu-se à conciliação e ao diálogo, admitindo a priori um choque de interesses e a mediação com que deveriam ser encarados: retirou a Coreia do Norte do Eixo do Mal e os EUA abriram diálogo com o regime em matérias de potencial nuclear; da simples rejeição de entrar em conversações com Mahmoud Ahmadinejad, libertou a sua consciência ao insistir na presença de diplomatas americanos em negociações entre a Europa e o Irão. Bush capitalizou com ponderação e pressionou subtilmente Teerão; a intransigência e as sucessivas provocações de Ahmadinejad perduram.

 

A Administração Bush passou a governar ao centro. Centro. O legado que deixa não se resume a lama. Numa edição recente da Forein Policy, David Frum reconheceu que «a História será mais simpática com George W. Bush do que as caricaturas que hoje se fazem dele». Talvez se prove mais cedo com Barack Obama. Até porque, como Frum notou, «a continuidade entre Bush e o seu sucessor será forte», particularmente num aspecto: a promoção da democracia, «o objectivo mais caluniado da política externa de Bush [que] continuará presente nos discursos presidenciais ainda durante muitos anos». Bush soube redimir-se. Há quem não o reconheça. Certo é que um bode expiatório morrerá em breve.


Bush foi um mau presidente para os EUA, mas concordo contigo no seguinte: a partir de 20 de Janeiro não há o bode expiatório( Bush) a quem se atríbuem todos os males da américa. Vamos ver se Obama consegue resistir às elevadas expectativas dos americanos.
André Pereira a 15 de Dezembro de 2008 às 23:55

É interessante a forma como vês as coisas e como consideras a melhoria a de Bush entre mandatos mas enfim, a mim Bush nunca convenceu. Agora quero apenas que Obama tenha sucesso e não volte com a palavra atrás nos muitos principios e ideiais que defendeu na sua campanha. E espero sinceramente que não façam dele um mártir... a ver vamos.

De momento quero ver o filme 'W' do Oliver Stone.

Abraço
Jim de la Rocque a 16 de Dezembro de 2008 às 01:26

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